
Ficou assustado com o título deste artigo? Se sim, então algumas coisas na sua forma de pensar (e nos seus argumentos) mudará para sempre depois de lê-lo!
Você já deve ter escrito “periferia” na redação para falar de pobreza, miséria, exclusão social, desigualdade… Parecia uma palavra acima de qualquer suspeita, não é?
Mas eu vim te avisar que as coisas mudaram.
Se você vive numa metrópole (ou numa cidade grande), sabe que as pessoas de todos os bairros têm interações sociais entre si. Não há portões ou muros entre os bairros.
Mas parece que periferia é um lugar isolado da cidade, não é? Parece que morar na periferia significa obrigatoriamente ser infeliz, ser “chutado” da cidade (onde tudo é presumivelmente ideal).
Meu caro, cidades não são bairros isolados, com suas vidinhas particulares. Ninguém precisa de Visto para ir de um bairro a outro!
Então não há bairro ou região de uma cidade grande em que a população está afastada ou isolada por lei!
De onde veio essa ideia de “periferia” = pobreza?
Isso começou lá no Segundo Império. Naquela época as cidades maiores (Rio, Salvador, Recife) tinham bairros ricos e bairros pobres (e a desigualdade ficou mais clara).
O Rio de Janeiro, por exemplo, tinha em seu Centro uma verdadeira réplica de Paris! Dá só uma olhada na Av. Central no começo do século XX:

Ao mesmo tempo, porém, tinha também bairros periféricos como o Morro de Santa Tereza:

Periferia era o que você (e outros alunos) aprenderam: não tinha nenhuma infraestrutura e o Estado não estava preocupado em melhorar as coisas. As coisas eram como eram e ponto final.
Mas periferia não ficava tão longe assim do Centro, né… então o trajeto não era tão demorado como hoje nas metrópoles – era um pulinho de bonde, a pé, ou a cavalo.
SIM, NAQUELA ÉPOCA PERIFERIA ERA O MESMO QUE POBREZA E MISÉRIA.
A periferia do Rio (o subúrbio, como os cariocas dizem) era pobre e o centro do Rio tinha gente rica ou com vida confortável.
(A periferia de hoje é diferente.)
Bem… o tempo passou: as cidades maiores foram crescendo ainda mais e o que era periferia virou centro!
Porque a periferia é móvel: ela fica sempre nos extremos da cidade! A cidade vai crescendo para as periferias, as periferias deixam de ser periferias, e novas periferias surgem.
Apareceram, então, novas periferias mais distantes.
Imagine que há uma distância de 40km mais ou menos entre o centro de São Paulo hoje e a periferia da zona sul!
Olha que interessante: já ouviu falar do Ibirapuera, em São Paulo? Nenhum paulistano hoje diria que ele é periferia. Ele não é mesmo. Mas ele já foi periferia, sim! Veja-o no começo do século passado:
Uma curiosidade: esse fenômeno de afastamento populacional do centro em direção à periferia aconteceu em várias cidades do mundo todo, dentre elas, muitas nos EUA e na Europa.
Nos EUA, por exemplo, “downtown” é o centro financeiro e comercial de muitas cidades grandes, enquanto a periferia se chama “uptown” – é a área onde ficam os bairros residenciais (aqueles que você vê nos filmes!).
(As pessoas se distanciam do centro porque ele se torna muito caro, principalmente, não é o governante em si que tem raiva do povo e “joga” as pessoas pobres para a periferia).
Voltando ao Brasil, a periferia foi se afastando cada vez mais do centro nas metrópoles, e aconteceu que mudou de “cara”.
Os bairros periféricos ganharam, pouco a pouco, mais infraestrutura, mais comércio local, mais serviços locais, mais opções de transporte… até metrô e clubes!
Mesmo que não seja como a gente queria, a administração pública tem cuidado mais das periferias (em comparação com a época de Machado de Assis).
Quem vive na periferia hoje?
O mais importante que quero te mostrar: hoje as periferias já misturam várias classes sociais.
Sim, AINDA É LONGE DO CENTRO…
Sim, AINDA CONCENTRA A POPULAÇÃO DE CLASSES MAIS BAIXAS (gente que não conseguiria pagar os preços do Centro)…
…mas periferia deixou de significar miséria e pobreza.
Esta, por exemplo, é uma rua de um dos bairros periféricos da Zona Leste de São Paulo, Itaquera:

A algumas centenas de metros desta rua no mesmo bairro:

As metrópoles e grandes cidades têm classes sociais muito mais misturadas!
Quando você usa o termo “periferia”, na redação, geralmente quer dizer “favela”, “área extremamente pobre”, “bairros ignorados pelo poder público”.
MAS VOCÊ ESTÁ MOSTRANDO UMA NOÇÃO SIMPLISTA E ULTRAPASSADA DE UMA CIDADE – CUIDADO!
Esses bairros e essa população mais pobre existem. Mas não apenas em periferias.
E população de classes mais altas também vivem em periferias.
“Periferia” não significa pobreza!
Periferia é uma palavra que denota apenas “local distante do centro”.
Só isso.
Os médicos oftalmologistas, por exemplo, sabem que você tem visão periférica! (pesquise no google para saber sobre isso).
Falando de cidades, não tenho ideia exata da periferia da sua, mas em São Paulo ela engloba bairros com setores sem sinal de pobreza e bairros pobres – tudo junto misturado ao mesmo tempo.
Já ouviu alguém dizer “sou uma mulher periférica”?
Não precisa sentir pena dessa mulher: ela está apenas dizendo que vive distante do centro da cidade dela. Nada mais que isso.
(Também existe a mulher central! 🙂 )
Um aluno paulistano nunca diria que o bairro do Morumbi, em São Paulo, é periferia – mas o Morumbi é quase uma periferia: está a cerca de 20km do Centro! Seus moradores levam seguramente mais de 2 horas para fazer esse trajeto ida e volta em dia de semana (e olha lá!).
Ele é mais conhecido como bairro de ricos, mas… na verdade é uma mistura de pobres e ricos que interagem (muito profissionalmente). A clássica foto que rodou o mundo diz tudo:

Muitas favelas cariocas ficam exatamente no Centro! E São Paulo também tinha uma favela no Centro até 2026 – a favela do Moinho.
Como falar de pobreza sem usar “periferia”?
Dá perfeitamente para se referir a pobres em cidades sem usar “periferia” (para não generalizar e estragar sua argumentação).
Você pode usar os aspectos que estudiosos do Núcleo de Estudos da Violência, Universidade de São Paulo, e da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo sugerem…
Vamos a eles de forma resumida:
- Condições sanitárias e de higiene do local
- Grau de dependência que a região tem do centro, ou seja, quanto tempo se leva para ir e voltar do trabalho, da escola diariamente
- Presença de áreas de risco, quer dizer, como desabamentos e inundações
- Existência de rios, lagos, represas, matas nas proximidades, que são áreas onde não se poderia construir nada, por risco de contaminação ou degradação ambiental
- Taxas de homicídio nos últimos anos no local
Em vez de falar de pobreza exclusivamente, você pode, portanto, citar esses problemas acima como sendo complicadores da vida de quem vive ali.
- Mesmo que um bairro tenha boa infraestrutura geral, se ele sofre com taxas de homicídio altas, ele tem um problema sério não acha?
- Mesmo que um bairro seja tranquilo quanto a criminalidade, se ele está muito distante de um centro comercial ou de serviços, seus moradores perderão horas diárias no trajeto – é uma vida ruim nesse ponto, não é?
E qual o risco de usar “periferia” na sua redação?
O RISCO É VOCÊ GENERALIZAR E INCLUIR TODOS OS MORADORES DISTANTES DO CENTRO – DE TODAS AS CLASSES SOCIAIS – ACHANDO QUE ESTÁ SE REFERINDO APENAS AOS POBRES.
As cidades são uma mistura, eu já disse. Mil cuidados com generalizações!
Se você escreve sobre certos condomínios de alto padrão ao redor de metrópoles, está escrevendo sobre a periferia! Eles ficam na periferia das cidades.
E olha que seus moradores levam um tempão para se deslocarem até o centro e outros bairros da cidade em busca de serviços, lazer variado e comércio especializado!
Não são miseráveis nem pobres e vivem na periferia…
QUE TAL? NUNCA TINHA PENSADO NISSO?
Só pra resumir
Muitos brasileiros que vivem na periferia não são pobres – fale de pobreza sem usar “periferia”.
Te provei que a ideia de “periferia” não está sendo mais tão adequada quanto antes para indicar pobreza e miséria, por isso comece a repensar como falar disso na sua redação. Comece a questionar o que professores dizem.
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